Brasília – O governo brasileiro intensificou esforços diplomáticos para conter a iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida, em discussão em Washington, é vista pelo Planalto como uma ameaça à soberania nacional e um risco de abrir espaço para sanções econômicas e até ações militares na América do Sul.
Temor de intervenção externa
Autoridades brasileiras argumentam que, pela legislação nacional, facções criminosas são tratadas como organizações criminosas, não terroristas. A mudança de classificação por parte dos EUA poderia permitir:
- Sanções econômicas contra indivíduos e empresas ligadas às facções.
- Operações militares sob o pretexto de combate ao terrorismo.
- Pressão geopolítica sobre países da região, ampliando a influência norte-americana em políticas de segurança.
Impacto político interno
A reação do governo Lula também tem dimensão doméstica. Assessores avaliam que a oposição pode explorar o posicionamento contrário à proposta de Trump como se fosse uma defesa das facções, ainda que a posição oficial esteja fundamentada em princípios jurídicos e de soberania. O Planalto, portanto, busca calibrar o discurso para evitar desgaste político interno.
Visões de especialistas
Analistas de relações internacionais destacam que:
- A iniciativa de Trump reflete uma estratégia de endurecimento contra o narcotráfico, mas pode levar à militarização da política antidrogas na região.
- Para o Brasil, o enfrentamento das facções deve ocorrer dentro do marco legal nacional, em cooperação com países vizinhos, sem abrir espaço para intervenções externas.
- A classificação como terrorismo poderia criar precedentes perigosos, permitindo que os EUA expandam sua jurisdição sobre crimes cometidos fora de seu território.
Cenário regional
A proposta também preocupa governos vizinhos, que temem que a medida seja usada como justificativa para operações unilaterais dos EUA na América Latina. Nesse contexto, o Brasil busca articular uma posição conjunta com países da região para reforçar a defesa da soberania e evitar que o combate ao crime organizado seja transformado em instrumento de disputa geopolítica.
Os Estados Unidos já utilizaram a classificação de “organizações terroristas estrangeiras” em diversos casos, e a experiência mostra que essa medida costuma abrir caminho para sanções financeiras, bloqueio de bens e até operações militares. O Brasil teme que o mesmo ocorra caso PCC e CV recebam esse rótulo.
Histórico da classificação de grupos terroristas pelos EUA
- Critérios oficiais: O Departamento de Estado norte-americano exige três condições principais para designar uma organização como terrorista:
1. Ser estrangeira.
2. Estar envolvida em atividades terroristas ou ter capacidade e intenção de fazê-lo.
3. Representar ameaça à segurança dos EUA ou de seus cidadãos.
Exemplos anteriores:
- Al-Qaeda e Estado Islâmico (ISIS) foram classificados, o que permitiu bloqueio de ativos e operações militares diretas.
- Hezbollah e FARC (Colômbia) também receberam a designação, resultando em sanções financeiras e maior pressão diplomática sobre países onde atuavam.
- Efeitos práticos:
- Congelamento de bens nos EUA.
- Proibição de transações financeiras com cidadãos ou empresas norte-americanas.
- Possibilidade de justificar ações militares ou operações especiais fora do território americano.
Implicações para o Brasil
- Diplomacia: O governo Lula argumenta que PCC e CV não se enquadram na definição de terrorismo pela lei brasileira, sendo tratados como organizações criminosas.
- Risco de sanções: Empresas e indivíduos brasileiros poderiam ser alvo de bloqueios financeiros internacionais.
- Soberania: A classificação abriria espaço para os EUA alegarem legitimidade em operações militares na América do Sul.
Comparação de casos
| Grupo | Ano da classificação | Consequências principais |
|-------|----------------------|--------------------------|
| Al-Qaeda | 1999 | Operações militares diretas, bloqueio de ativos |
| FARC (Colômbia) | 1997 | Sanções financeiras, pressão diplomática sobre Bogotá |
| Hezbollah | 1997 | Sanções econômicas, restrições internacionais |
| PCC/CV (Brasil) | Em discussão (2026) | Risco de sanções, possibilidade de intervenção externa |
Análise
Especialistas alertam que, embora a medida possa facilitar a cooperação internacional contra o crime organizado, ela também militariza a política antidrogas e cria precedentes perigosos. O Brasil teme que a designação seja usada como instrumento de pressão geopolítica, ampliando a influência norte-americana na região.


